O tipo de vida das mulheres relatado no livro “A Cidade do Sol” – comentado no texto anterior – não é obra de ficção.
No Afeganistão, as mulheres vivem de um jeito que, para nós, é até difícil acreditar. O “mundo ocidental” ainda se estarrece com a violência física e principalmente psicológica que essas pessoas sofrem, sendo forçadas a obedecer a leis radicais, intransigentes e absurdas do regime Talibã (o movimento segue a forma de Lei Islâmica).
É justamente esse mundo real que o livro Mulheres de Cabul quer mostrar. Nele, a fotógrafa inglesa Harriet Logan, expõe através de fotos e relatos das mulheres afegãs, todo sofrimento vivido por essas pessoas e suas famílias. A fotógrafa visitou o país duas vezes, a primeira durante o regime Talibã (1996-2001) e a outra, depois dele.
Essa obra supera os romances contados sobre a vida no oriente por trazer histórias reais, com fotos belíssimas e emocionantes.
A primeira visita de Harriet Logan ao Afeganistão, representou um grande risco para ela e as mulheres afegãs, já que tirar fotografias era proibido pela lei Talibã. Sobre a viagem, a autora relata no livro:
“No decorrer da viagem, meu motorista e o intérprete foram espancados porque o meu véu escorregara um pouco para trás, deixando entrever uma pequena mecha do cabelo quando eu saí do carro.”
É mais uma prova da violência excessiva sofrida pelo povo afegão.
Harriet foi obrigada a usar a Burkha enquanto andava pelas ruas de Cabul, capital do Afeganistão, tentando não levantar suspeita do seu objetivo de contar histórias chocantes como a da professora Zargoona, que foi proibida de lecionar – o regime Talibã não permitia qualquer tipo de atividade à mulher, exceto cuidar da casa, dos filhos e do marido (que podia ter mais de uma mulher) – A professora continuava dando aulas escondida, com medo de ser descoberta e sofrer as conseqüências do seu descumprimento da lei.
Zargoona foi revisitada pela fotógrafa em 2001, quando o regime Talibã perdeu o poder, mas já sofria de um câncer – sem dinheiro para comprar remédios e fazer um tratamento.
A comparação feita entre a vida das mulheres durante um período de tanta violência e agressão e depois dele, é realmente incrível. Na sua segunda viagem ao Afeganistão, a fotógrafa já via pelas ruas os objetos proibidos, como fitas-cassete, TVs, cartões-postais e até o filme Titanic, que se tornou um grande sucesso, mesmo na clandestinidade – porque alguns afegãos assistiam TV às escondidas.
O livro é fascinante. As fotos mostram uma realidade cruel, mas que precisa ser conhecida por todos.
Abaixo, algumas atividades que foram banidas durante o regime Talibã:
• leitura de alguns livros;
• portar câmeras sem licença;
• cinema, televisão, uso de videocassetes (considerados decadentes e promotores da pornografia ou de idéias não-muçulmanas);
• uso de Internet;
• música;
• uso de roupas para mulheres que não cobrissem todo o corpo;
• empinar pipas (considerado perda de tempo, além de serem usadas em rituais hindus);
• aparição de mulheres em fotos ou na televisão, ou fotografar mulheres;
• plantio de ópio;
• previsão do tempo;
• boxe. Embora o esporte continuasse a ser praticado no país, os competidores não podiam participar em torneios internacionais pois não podiam cortar a barba, enquanto as regras internacionais do boxe exigem que o atleta esteja completamente barbeado;
• Artes(pinturas,estátuas e esculturas de outras religiões).
Lei Islâmica :
Dentre as leis aplicadas no regime Talibã, estavam:
• A amputação das mãos de ladrões e o apedrejamento por adultério;
• Usar sapatos brancos - a cor afegã - era proibido, e os homens eram obrigados a usar barbas longas.
Sobre as mulheres:
• Em alguns casos, eram impedidas de ter acesso a hospitais públicos para que não fossem tratadas por médicos ou enfermeiros homens;
• Não podiam sair de casa sem acompanhantes homens, e saiam somente pela porta de trás do ônibus;
• As viúvas ou que não possuiam filhos eram consideradas não-pessoas pelo Estado e muitas vezes enfrentavam a fome.
O mais importante dessa leitura é nos colocarmos diante de tanta crueldade e humilhação que essas mulheres sofrem. A história é real, chocante, mas nos faz refletir sobre a importância do respeito ao ser humano.
Um abraço e até a próxima,
Emanuela Carvalho